outros / 1 de abril de 2013

Sobre publicidade e o direito de citar marcas e produtos

Texto de Ana Basaglia*

Começou com a Mila perguntando o que o grupo que conversa sobre consumismo infantil no FB pensa sobre o assunto transcrito no Globo, assinado pelo colunista Daniel Galera. O autor inicia falando de um personagem do seu livro “Até o dia que o cão morreu” que cita, pejorativamente, uma escola de inglês na primeira edição, feita de maneira independente; na segunda edição da obra, agora publicada por uma editora de renome, o autor é persuadido a omitir o nome da escola de inglês da fala do personagem, sob a justificativa de evitar futuros processos judiciais. A partir desse fato, o colunista discorre sobre a impossibilidade de escrever ficção contemporânea realista sem personagens que adotam ou rejeitam determinadas marcas e produtos — argumento que eu aceito. Ora, se os anúncios e marcas entram à força em nossas vidas, e se qualquer anúncio em espaço público não nos oferece alternativa a não ser vê-lo, ele pode ser utilizado à vontade em obras variadas, como reflexo da nossa contemporaneidade.

Parece-nos que não há muito problema com relação a esse partido. Mas a dúvida surge se a gente olhar para essa “liberdade de expressão” no universo infantil. Se seguirmos essa linha de pensamento, um autor de quadrinhos infantis não poderia alegar que coloca seus personagens tomando refrigerante porque isso faz parte da vida das crianças e que ele está apenas retratando um comportamento que é comum a várias crianças?

Nós, particularmente, achamos que são coisas beeeem distintas: um texto literário citando a escola X e uma revistinha citando o refrigerante. No mínimo, o adulto pode sacar se o autor está fazendo um publieditorial(1) ou se a marca esta emprestando atributos ao personagem, algo que a criança dificilmente vai perceber. São leituras bem diferentes!

Seria então uma boa alternativa para não influenciar as crianças impedir a citação de marcas e produtos nas HQ’s? Ou só nas HQ’s direcionadas a elas?

O caminho também não passa por aí. Na verdade, tudo pode ser dito ou escrito, desde que fique clara a intenção de quem faz e se o público a quem a obra se destina consegue entender o recado. Eu aceito a propaganda no mundo contemporâneo (apesar de não gostar às vezes pela sua agressividade, preconceito, burrice) porque tenho meios para lidar com ela, entendê-la, bloqueá-la, aceitá-la ou criticá-la. Uma criança não tem a mesma maturidade para fazer isso, motivo pelo qual acho que a propaganda NÃO deve falar com ela, seria desigual. Por exemplo, se for Ruth Rocha citando Conga apenas pela visão da escritora-autora-reconhecida-pelos-títulos-infantis, acho aceitável, afinal, ela pode estar falando da visão dela, e eu vou julgar apenas pela qualidade literária e pertinência ao tema. Se for Ruth Rocha fazendo propaganda de Conga, obtendo lucro a partir dessa indicação por ser uma autora influente (o tal publieditorial), daí achamos que é uma tremenda COVARDIA e merece ter regras de proteção mesmo.

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E se a citação for mera descrição da personagem – como aponta o autor da coluna – não tendo gerado lucro e nem sendo elogiosa ou crítica, ainda existe um dilema: é desejável demandar que um autor (no caso infantil) não cite marcas, mesmo que sirva à ficção, ao enredo? Seria a exposição a esta citação prejudicial? Colaboraria na formação de estereótipos a partir da grife, quando atributos intangíveis da marca seriam parte da personalidade de uma suposta personagem? Será que nas crianças criaria desejo de “possuir” as qualidades da personagem? Será que a infância tem chance de ser totalmente protegida? Será que se houvesse proibição, as marcas não começariam a invadir a literatura infantil, como já invadem o cinema? Haveria como disciplinar isso sem ferir a liberdade artística e a expressão “genuína” dos autores?

Sinceramente, achamos que se for citação como mera descrição do personagem, tudo é permitido, e o próprio público validará como ok ou como imbecilidade e/ou efemeridade. Porque todos nós somos uma construção (diária) de referências, e tudo que nos cerca, hoje, neste momento, nos influencia, nos molda, chama nossa atenção, direciona nosso olhar, agrada ou incomoda, enfim…

A muitas pessoas (nós inclusive), incomoda muito todo e qualquer tipo de tutela. Daí advêm as dificuldades em aceitar qualquer regulação na arte – porque arte é para fruir, fazer pensar, emocionar, remexer pré-conceitos, agradar, incomodar, não precisa (nem merece) regulamentos!

O que a gente poderia considerar uma “infância protegida”? Uma infância sem referências de marcas? Mas as marcas fazem parte da vida de muitas crianças, pelo menos das crianças dos grandes centros urbanos, quer a gente queira ou não… Não sei se seria razoável *proibir* as marcas de existirem no mundo infantil… Não achamos isso possível, estaríamos querendo uma criança criada numa bolha, e isso não é viável (nem saudável).

Por outro lado, é fundamental REGULAR o que entendemos como “publicidade”(2) e a extensão de sua influência, principalmente com relação ao público infantil. Porque são duas forças antagônicas e de poderes distintos: o público infantil, já está mais do que comprovado, NÃO TEM POTENCIAL para entender (lidar, refutar, aceitar, questionar) a influência da propaganda. AINDA.

Falando especificamente de produtos do mundo infantil, no caso da literatura: essencialmente, achamos que não precisa de marcas para dar seu recado, mas se um autor “precisar” falar de uma marca específica (Ruth Rocha citando a Conga, por exemplo), é aceitável… Como proibir? Como regular? Vai virar uma ditadura burra? Besteira… Se, nessa mesma literatura infantil, o autor começar a citar marcas e/ou produtos com fins mercadológicos, daí, sim, é urgente passar esse material por uma REGULAÇÃO, o público infantil não tem mecanismos ainda para entender que é um publieditorial. Mas, aqui entre nós, já não é mais literatura na sua essência, né?

Atualmente, as revistinhas do Maurício de Sousa transitam por esse segundo caminho, vocês não concordam? Não importa se as pessoas gostam ou detestam as historinhas da Mônica, Cebolinha e cia. O que não se deve admitir são as PUBLICIDADES (diretas ou indiretas) que aparecem nas suas páginas! Porque é muito ANTI-ÉTICO, demais da conta! Se o Maurício de Sousa quer fazer propaganda no seu trabalho artístico, então ele que se sujeite às regras regulatórias existentes para proteger o público (ainda) leigo.

E vocês, o que acham dessa linha de raciocínio? Comentem, participem, dêem-nos sua opinião!

***

(1) Publieditorial é um informe publicitário. Trata-se de um tipo de publicação encartada em jornais e revistas como se fosse mais uma página, coluna ou caderno jornalístico, mas não é, embora em sua totalidade ostente em algum lugar um aviso (sempre em letras bem pequenas) sobre o seu propósito publicitário.

(2) Publicidade é o ato ou o efeito de dar a conhecer um produto, ideia ou conceito, incitando ao seu consumo. Pode ser entendida como a arte de convencer, persuadir e seduzir. É um processo comunicativo que difunde informação através de diferentes meios, tais como a televisão, a rádio, a internet, e a imprensa escrita (jornais e revistas).

*Ana Basaglia, 46 anos, tem 3 filhos, é designer gráfico, professora universitária na Comunicação Social, fundadora da Matrice e adora refletir em grupo!


Tags:  arte grupo Consumismo e Publicidade Infantil livros publicidade infantil publieditorial regulamentação

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Mariana Sá




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