campanhas / publicidade de alimentos / 9 de agosto de 2013

Por que não ensinamos educação alimentar e culinária nas escolas?

Texto de Renata Kotscho Velloso*

O chef inglês Jamie Oliver está lançando nos Estados Unidos uma campanha pedindo educação alimentar em todas as escolas. O objetivo é reduzir a obesidade e as doenças relacionadas à alimentação no país. A iniciativa faria todo o sentido também no Brasil.

Para o chef, “uma dieta saudável é fundamental para uma vida saudável, mas nossas crianças não têm o conhecimento necessário para fazer boas escolhas alimentares nem sabem preparar uma refeição saudável e nutritiva.”

Do que eu conheço das escolas do Brasil, a situação não é muito diferente. O único lugar em que presenciei aulas de culinária como parte do curriculum básico foi na pré-escola. Na educação infantil ainda é comum colocarem as crianças para fazerem bolinhos, brigadeiros, cultivarem uma horta e prepararem uma salada.

Mas basta a criança ir para uma escola “séria” que esse aprendizado deixa de ser importante. Fundamental é saber trigonometria, química orgânica e história grega. Cozinhar é visto como um trabalho braçal, menor, que nossos aprendizes de intelectuais não precisam saber.

Mas os dados estão aí para mostrar o quanto essa abordagem está errada: a geração atual é a primeira a ter uma expectativa de vida menor do que a dos seus pais. No Brasil, segundo dados do IBGE, 36,6% das crianças estão acima do peso (a obesidade infantil saltou de 1,4% em 1974 para 16,6% em 2009) e menos de 20% dos adolescentes comem a quantidade recomendada de frutas ou vegetais por dia (cinco ou mais porções).

Vivemos hoje num mundo onde as crianças reconhecem marcas como Apple, Motorola e, claro McDonald’s, mas não sabem diferenciar uma abobrinha de uma berinjela. Sabem construir (e destruir) cidades inteiras em joguinhos de vídeo game, mas não sabem como preparar um sanduíche nutritivo. Muita gente sai do ensino médio das boas escolas sabendo função logarítmica, mas não consegue cozinhar nada pra comer que não seja macarrão instantâneo ou pipoca no microondas.

As escolas têm uma habilidade única para educar as crianças e estão com elas a maior parte do tempo da sua rotina. Não há nada de errado em ensinar a dissecar uma galinha no laboratório de biologia, mas, para as crianças, ensinar a preparar uma boa canja faria muito mais diferença.

Imagem da web.

*Renata é mãe de 3 meninas: Luiza, Julia e Clara. Médica formada pela Unicamp, em Campinas, mora há um ano com sua família na Califórnia. Sua filha Julia é autora do blog Chef Juju, com muitas receitas gostosas. A família se prepara uma viagem ao redor do mundo e você já pode conferir essas aventuras no youtube.


Tags:  alimentação infantil alimentação saudável comida de verdade educação alimentar nas escolas publicidade de alimentos

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Mariana Sá




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2 Comments

Aug 09, 2013

Oi, Renata! Sou muito fã desse projeto e estou fazendo inúmeras modificações na rotina alimentar da minha casa. Mas acho que a maior mudança foi encarar que o “trabalho” de cozinhar é importante e, quando a gente se permite deixar de lado pré conceitos enraizados, é bem prazeroso! E nutritivo! Foi só quando comecei a cozinhar em casa que passei a reparar na qualidade dos alimentos, nos rótulos, nos ingredientes…e nossa! Fiquei mega assustada! De comida pronta e industrializada para comida natural e caseira foi um grande salto! E a prática já é tanta que estou no nível do Jamie, preparando refeições completas e nutritivas em 30 minutos! 🙂 Mas não era isso que eu queria falar. Eu queria falar sobre as aulas de culinária nas escolas…são terríveis as que minha filha faz: é brigadeiro, pipoca, pizza…nunca vi salada…chega a me dar uma coisa! Beijos! Nine


Aug 10, 2013

Concordo com tudo o que foi dito. Alimentação adequada é fundamental. O Estado policia nossas vidas e nossas relações com os filhos de diversas maneiras, mas sobre a alimentação, as ações ainda são incipientes. O problema, no entanto, me parece ser a falta de uma cultura alimentar da parte dos próprios pais hoje – que são das primeiras gerações fast food. Muitas amigas minhas não sabem cozinhar ou cozinham tão mal que não se interessam pela “arte”… Crianças que vivem num ambiente familiar com alguém cozinhando – e mostrando o que é uma abobrinha, uma beterraba, uma coxa de frango crua – adquirem logo uma curiosidade sobre a comida… Como é que aquela coisa dura, que é o arroz, fica macio? Por que temos que furar a gema do ovo antes de ir para o micro-ondas? De onde vem o bife?
Isso existia nos tempos da minha mãe, o que está ficando cada vez mais raro. A escola pode, sim, se responsabilizar por sensibilizar e oportunizar novos gostos e cheiros para nossas crianças. Contudo, se esta experiência não se repetir em casa, diariamente, não vai ser fácil mudar os hábitos.



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