criança e mídia / 25 de julho de 2014

Por um mundo onde a diversão não seja via wifi

Textos especial para o Milc de Paola Rodrigues*

Nos anos 90, minha geração tinha ainda algumas opções de diversão. Sei todas as cantigas, brinquei de taco na rua, corri atrás do ladrão, sei que Babalu é California e California é Babalu e apesar de não ser legal, atiramos o pau no gato.

Apesar de meus pais serem extremamente ocupados e acreditarem que a TV era o melhor amigo do homem, consegui escapar da exposição precoce a muitas coisas, mas admito que minha filha não vai ter a mesma sorte.

Seria hipocrisia dizer que não estamos conectados grande parte do dia em casa, eu trabalho com internet e meu marido faz jogos para computador, ou seja, estamos online no Hangouts, Facebook, Skype, WhatsApp e Candy Crash Saga durante o expediente. Não temos TV, mas vemos filmes e séries.

Porém, quando Helena ainda tinha alguns meses, percebemos o quão ruim pode ser essa exposição. Aos poucos o sono dela foi ficando cada vez pior e um belo dia, ela queria ver filme o dia todo! Aquilo me deu um desespero e me vi entre o dilema que toda família deve passar: onde é o limite?

Fico triste quando percebo que os novos amigos imaginários ganham levels, vidas e estão numa tela, brilhando e esperando comandos que deixam as crianças cada dia mais viciadas. Antes as férias eram festa, rua, comer pipoca, brincar, desenhar e descobrir um mundo de imaginação sem fim, agora o conceito de diversão mudou, se resume a celulares, TV, vídeo games e o quão grande é o poder de fazer com que a criança nem exista. Quanto menos barulho fizer, melhor.

Retirando todos os pontos negativos para os aspectos neurológicos da criança, quando nos atemos apenas ao social, chega a dar um frio na espinha. Sem interação, não nos resta mais do que perder alguns valores importantes, que não estão associados a passar por aquela fase super difícil no jogo ou compreender porque a mocinha da novela é mimada. Não desqualificando os benefícios, que eu sei que existem, mas é necessário perceber os limites.

Como uma família que trabalha com tecnologia, chegamos a conclusão que algumas coisas tem, não apenas idade adequada, mas momento adequado.  Talvez seja válido presentear nossos filhos com possibilidades de convívio e descoberta. Um dia no parque e Helena conheceu o fantástico mundo da gangorra.

Com um lápis e papel, você ensina seu filho que Toquinho foi um compositor fantástico e que você pode desenhar um castelo com um sol amarelo. E assim, no fim, o mundo ganhou mais cor sem precisar de LED e o maior chefão, a distância, foi morto com tiros de canhão.

Imagem da web.

(*) Paola cursa o primeiro ano de Licenciatura em História, é escritora, produtora cultural e apaixonada pela maternidade. É mãe orgulhosa de duas, mesmo só podendo estar com uma. Escreve no blog Cartas para Helena, onde o foco é deixar um relato de pensamentos e percepções para a pequena Helena. É colaboradora na Revista Obvious, ativista no acesso a cultura e arte para todos e acredita que estamos criando um mundo melhor, quando deixamos crianças serem crianças. http://cartasparahelena.wordpress.com/.


Tags:  proteção à infância telas televisão

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Mariana Sá




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