outros / 17 de setembro de 2012

Um convite ao diálogo e à reflexão: tréplica à revista Pais & Filhos

Para acompanhar o debate desde o início, clique primeiro aqui, depois aqui.

Prezada Monica Figueiredo,

Agradecemos a pronta resposta, o convite e os esclarecimentos prestados. No entanto, ainda temos algumas dúvidas sobre o teor destas matérias e nos reservamos o direito de discordar veementemente de seu conteúdo, que, sendo ou não pago, mais se assemelha a um release do que a uma matéria jornalística.

Se vocês promovem debates e ouvem as mães, por que colocam um único ponto de vista nas matérias? Onde está a diversidade de opiniões e ações? Isso, como já foi dito, nos parece pobre jornalisticamente, e prejudicial às mães que querem amamentar ou dar comidas caseiras ao seus filhos apesar de tudo: apesar da revista, apesar do enorme apelo da indústria alimentícia, apesar dos jornalistas e médicos que se curvam a ela, apesar dos contratempos, apesar dos problemas que venham a surgir. Para nós, a matéria, sim, defende uma posição só. E isso é injusto.

Você diz que não é anúncio, é editorial. Editorial reflete a opinião da Revista. Mas isso não casa com o conceito de sustentabilidade que vocês dizem defender, por exemplo. E não casa com dar voz a outras mães, às pessoas interessadas diretamente nos assuntos tratados pela campanha. Você também fala em “ir mais fundo”, no caso da matéria das papinhas; mas se ir mais fundo é publicar depoimentos de uma mãe e uma pediatra, seguimos achando que se trata de um release da marca de papinhas.

Não seria apropriado, no caso da matéria sobre amamentação, falar que existem muitas formas de superar os problemas (que, sim, existem, e nós não negamos) do que simplesmente eximir a mãe de culpa e indicar a fórmula? A média de amamentação exclusiva no Brasil não chega a 60 dias, ainda está muito longe dos 180 dias preconizados pela Organização Mundial de Saúde. Logo, percebe-se que as que não amamentam depois dos dois meses são a maioria. E ainda assim a revista acha que precisa eximi-las de culpa (será que elas sentem culpa?), que isso é mais interessante do que mostrar também outros caminhos para incentivá-las a continuar, por exemplo?

Nos perguntamos: por que a revista precisa sair em defesa da maioria, se as minorias é que sofrem patrulha? Por que a revista não se preocupa em ir atrás de evidências médicas, por que não se preocupa em bem informar? Por que não vai além da pauta pronta e publica declarações de outras mães, colocando o debate na matéria em si e não somente em fóruns? Afinal, o que fica na edição impressa é a matéria, pobre em informação e rica em desserviço.

Não somos partidárias da patrulha e concordamos com o fato de que as pessoas devem colocar suas opiniões livremente, mas achamos que as matérias e a campanha da revista devem refletir isso. E vocês não estando dando voz às diferentes opiniões. Ou a nossa carta aberta será publicada na revista? Somos um coletivo com mais de 8.000 seguidores no Facebook, com mães e pais espalhados pelo Brasil e até outras partes do planeta.

Por fim, não acreditamos no discurso de “menos mãe”; não existem medidores de maternidade, não achamos que via de parto ou tempo de amamentação por si só definam qualquer coisa, assim como ninguém é mais ou menos ser humano por assumir uma ou outra postura. Somos a favor de uma maternidade consciente, responsável e bem informada, por isso nos manifestamos. E existem questões de saúde pública envolvidas nesses textos, portanto achamos que vale uma reflexão mais aprofundada sobre a linha editorial de vocês. Acreditamos que este tipo de matéria, com visão única, não é pertinente nem condiz com a importância de uma publicação antiga e prestigiosa como a Pais & Filhos.

Atenciosamente,

Coletivo Infância Livre de Consumismo


Tags:  culpa não Pais & Filhos

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Mariana Sá




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14 Comments

Sep 17, 2012

Estou acompanhando o debate e quero registrar minha opinião, para efeito didático – excluindo a hipótese de que a campanha possa ser um publieditorial (que do meu ponto de vista somente os brindes da marca hegemônica associados aos temas, já caracterizam)

O que faz a PATRULHA

– Insiste que as necessidades básicas da esfera da criação de filhos devem ser de responsabilidade da mãe.
– Pontua a necessidade de que as informações dirigidas ao público materno sejam criteriosamente verdadeiras – de acordo com verdades absolutas ou científicas.
– Entende que publicidade mercadológica de produtos pró-desmame ou demais alimentos artificiais servem como incentivo à propria “culpa” de não conseguir satisfazer necessidades básicas dos filhos de forma natural.
– Pontua que é necessário que mães e mídias tenham cada uma a sua própria responsabilidade.
– Pontua que mesmo aquelas que não atingiram o “esperado” devem entender individualmente as causas de suas histórias e viver uma vida cheia de responsabilidade, sem culpa nenhuma.
– Entende que quem faz as melhores escolhas – de fato – não sente culpa.
– Exibe com clareza que vivemos um momento grave no que tange criação de filhos, que tem cada vez menos mães disponíveis.
– Relaciona os perigos da terceirização completa dos trabalhos maternos com as necessidades do mercado: para que haja muitas vendas de leite é preciso que muitas mães falhem na sua missão de amamentar as próprias crias.
– Exige que imprensa e meios de comunicação sejam imparciais na amostra de conteúdo, que no mínimo, cubram a verdade sobre os temas que abordam. (não, alimentar criança com coisa artificial não é o melhor que NENHUMA mãe pode fazer)
– Repudia a postura de todo e qualquer veículo, especialista, amigo, clube, clã ou família que aja no sentido de incapacitar mães.
– Levanta a possibilidade de que os meios e produtos nos dias de hoje tratam todas as mães como incapazes – e beneficiam-se disso.

O que faz a Campanha Culpa Não

– Culpabiliza as mães que não sucederam nas tarefas básicas de nutrir os filhos com seus melhores recursos.
– Polariza a cena – transformando aquelas que sucederam (a patrulha) em culpados.
– Tiram de si a própria responsabilidade sobre as infinitas histórias de desmame.
– Utilizam-se do sentimento materno para gerar debate – ao invés de conversar com mães como seres pensantes.
– Tratam as mães “culpadas” como dependentes de algum tipo de redenção – e colocam-se em posição para fazer esse aval.
– Esquecem de contar metade da história – como por exemplo o fato de que estamos anos luz aquém da média recomendada para amamentação exclusiva, e de que as mães que sofrem a tal “patrulha” são a ESMAGADORA MAIORIA.
– Continuam perpetuando o establishment – de que maternar é muito difícil, impossível, e que precisamos de muitos recursos (que a Nestlé vende, que bom!) para dar conta dessa missão tão árdua.
– Não tratam de verdade da culpa de cada mãe, somente afirma que não devemos sentí-la. Me parece a forma menos eficiente do mundo de tratar a culpa. A negação.


    Sep 18, 2012

    Perfeito, Anne! Complementa o debate, enriquecendo sobremaneira a discussão.


Sep 17, 2012

Já que acabei não lendo a matéria inteira da revista, fui procurá-la para aprofundar-me na discussão, mas não a encontrei no site.
Será que alguém poderia passar o link por favor?


      Sep 17, 2012

      Obrigada Debora!
      Bom, agora eu li a reportagem inteira, reli as cartas, tanto as deste site quanto a do Pais e Filhos, e posso dizer que vocês estão sim com razão e que eles falaram, falaram, falaram e não disseram nada!
      É visível a propaganda das papinhas prontas da Nestlé, a começar pela foto exibida na matéria, dá para ver tranquilamente que o rótulo é da marca. Além disso, gostaria de saber se todas as papinhas prontas do mundo possuem “embalagem a vácuo” e se todas “as papinhas de frutas não têm adição de açúcar e as de sal têm quantidade reduzida de sódio.”
      E é pior ainda quando vemos uma matéria do mesmo site (Por dentro das papinhas prontas – http://revistapaisefilhos.com.br/sendo-pais/culpa,nao/por-dentro-das-papinhas-prontas) que afirma que “por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as papas devem seguir os valores de referência da tabela DRI (do inglês, Dietary Reference Intakes). Isso significa que elas precisam trazer na embalagem a porcentagem de vitaminas e minerais que cada porção representa das necessidades nutricionais diárias de uma criança. Esse valor é dado em porcentagem e vem acompanhado da sigla VD, que quer dizer o valor nutricional diário que aquela porção de papinha supre das necessidades da criança. Opcionalmente, os fabricantes também podem disponibilizar este valor especificado em calorias, carboidratos, proteínas, gorduras totais e saturadas, fibra e sódio.” Acontece que as papinhas da marca não mostram valores de vitaminas e minerais coisa nenhuma! Fui até ver no site deles, que tem a imagem dos rótulos, e não falam mesmo, inclusive nos locais das % dos valores diários, a maioria dos campos estão marcados como “valores diários não estabelecidos”, o que é bem estranho, já que nas embalagens de Leite Ninho Fases (da mesma Nestlé) esses valores aparecem.
      Além disso, o próprio site da revista fornece dezenas de dicas de como fazer papinhas em casa, o que só me leva a imaginar que essa foi uma matéria extremamente infeliz e imparcial e que as papinhas Nestlé, além de tudo, ainda estão desobedecendo as leis da Anvisa e provavelmente camuflando dados que nós, como mães e pais, temos não só o direito de saber, como o dever.
      Aproveitando a pesquisa, dei uma olhada no site americano da Nestlé e lá tem muito mais informações dos produtos de lá e as papinhas nem sequer têm sal, além de terem uma aparência muito mais atraente e saudável (pode ser só impressão, claro). E agora? Seria bom se a Nestlé esclarecesse isso né? E se a Anvisa cobrasse também né?
      Enfim, uma última crítica à matéria: eu quando ganhei minha filha também não sabia cozinhar e até hoje não sou muito fã não, mas nem por isso ela deixa de ter uma alimentação saudável e feita na hora. Minha filha, de início, também não queria comer a comida que eu fazia, eu também ficava “com raiva e frustrada” mas nem por isso desisti! E olha que nem tenho empregada, como a entrevistada e ainda assim trabalho, estudo, cuido de casa e tenho tempo para a minha filha… E sou feliz!

      Um muito obrigada pela carta aberta a este site e espero que peçam também esclarecimentos sobre a real qualidade das tais papinhas prontas.


Sep 17, 2012

Acho que podemos observar diante dessa resposta o tamanho da lacuna aberta pela pais e filhos. a pergunta que não quer calar é: para onde vai a confiabilidade da revista? Será que diante desses fatos ele passarão a ter mais respeito por seus leitores? A necessidade de bancar a publicação suplanta a ética?


Sep 17, 2012

alguém notou que a reportagem fala só sobre o trabalho da mae?que o pai nao cozinha papinha nem nada? ahahahaahahah

“É, o mundo mudou. Mulheres são executivas, empresárias, presidentes. Mas parece que as exigências sobre nós só se somam. É preciso encaixar todas as novas atribuições e, ainda por cima, ser uma mãe tão boa quanto acreditamos que as mulheres que não faziam nada disso eram, é ou não é? “Essas mães vivem em constante culpa e angústia por não serem mães ‘ideais’. Sentem que deveriam ficar mais horas com os filhos, deveriam cozinhar todos os dias para eles, deveriam ter maior disponibilidade, mais paciência… E diante deste contexto, aparece a famosa síndrome da culpa materna”, resume bem a psicóloga Paula Fernandes, mãe de Julia.”
se as mulheres estao trabalhando e os homens tb, todo mundo tem os mesmos deveres.pq nao existe culap paterna?pq ainda vemos a mulher como provedora de alimentação, mesmo quando a criança já nao mama mais?

a reportagem é horrivel e unilateral. Só isso. As mães são lindas e tentam tudo com muito amor. O termo desserviço, para essa reportagem, é corretíssimo.


Sep 18, 2012

Anne querida, assino embaixo o que disse. A blogosfera materna veio para instalar o conceito de uma sociedade matrifocal. Agora se preparem! E seremos vitoriosas, todas! Pelo bem dos nossos filhos e de um mundo melhor. A hora é agora.Um beijo e parabéns Mari pelo texto, excelente!


    Sep 18, 2012

    uau! viemos mesmo, estou me dando conta disso através do seu comentário. 🙂


Sep 18, 2012

Batje!


Sep 19, 2012

“Não somos partidárias da patrulha E CONCORDAMOS COM O FATO DE QUE AS PESSOAS DEVEM COLOCAR SUAS OPINIÕES LIVREMENTE, mas achamos que as matérias e a campanha da revista devem refletir isso.”
Isso me fez lembrar que a revista direcionada aos pais mais lida na França, a Familie, e uma outra relacionada ao desenvolvimento infantil, a Pschyo Enfants, trazem discussões importantes e a revista mantem-se na imparcialidade. Se o assunto fosse “papinhas” haveria a coluna do SIM (os pais falariam que elas são pràticas, nutritivas, uma mão na roda para quem não cozinha…) e a do NÃO (monopolio da empresa de papinhas, qualidade e gosto duvidosos, produtos frescos e caseiros é o que há de melhor….). Os pais dão as suas opiniões e justificativas pelo uso (ou não) do produto e, no final, a Revista apresenta a matéria com a opinião de especialistas no assunto (um nutricionista). Coisa séria, imparcial. Quem decide e reflete sobre o que é o melhor ou não é o leitor. Eu acho uma lamentável que uma revista de grande porte e de um enorme alcance e influência como a Pais e Filhos induza pais a fazerem o “melhor” para os seus filhos, tendo por tràs, um apelo velado à publicidade. Falar que papinha industrializada é melhor para os filhos e que os pais podem oferecer este tipo de alimento SEM CULPA é irresponsável e esbarra na questão de saúde publica sim.


Sep 21, 2012

Sabe o que mais me impressinou? Quando a matéria menciona que é melhor dar papinha pronta do que comida estragada.. É, porque há dificuldade em refrigerar, manter a segurança microbiológica do alimento… Tipo assim: melhor ser uma mãe alienada e que não brinca com o filho do que ser uma mãe que espanca o filho!!! São duas opções e vc só pode escolher entre uma delas!!!! Viu como queremos mães informadas e consciente? Ah, e sem culpa!!!


Sep 25, 2012

Eu tive minha primeira filha aos 25 anos. Dez anos depois fiz uma cirurgia de redução de mama. Aos 42 engravidei novamente e não consegui amamentar meu filho. Tentei por 2 meses, contratando uma enfermeira de banco de leite, frequentando o banco de leite, fazendo translactação, ouvindo médicos, vizinhas, parentes. Dois longos meses de estresse e perda de peso para meu bebê. Sofri muito, senti muita culpa e ainda tive de conviver com o julgamento social, sempre impiedoso, toda vez que eu alimentava meu filho com a mamadeira fora de casa.
Não vou entrar na discussão sobre o que é patrulha, mas eu até hoje sou insultada por isso, cada vez que ouço/leio frases como:
“Logo, percebe-se que as que não amamentam depois dos dois meses são a maioria. E ainda assim a revista acha que precisa eximi-las de culpa (será que elas sentem culpa?)”
Não li a matéria, mas se o defeito da campanha é eximir de culpa mães que não podem amamentar ou que precisam recorrer a papinhas na hora da correria, então eu aplaudo a revista.


    Sep 28, 2012

    Também passei por isso. Só que tive a felicidade de ter acesso ao contato de um médico que salvou a amamentação, ainda que tenha continuado usando fórmula. Se não conseguisse, bem, paciência, saberia que tinha tentado de tudo. Não preciso de uma revista que contrarie todas as recomendações da OMS para lidar com os meus sentimentos. Hoje amamento uma criança de 1 ano e tem quem condene, ache feio… Quando estamos seguras de nossas opções, ou até de nossa falta de opção, olhares e palavras não nos atingem.



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