campanhas / 7 de fevereiro de 2014

O que o Clarear tem a ver com consumo e infância?

Texto de Ceila Santos*

clarearEu aprendi que o nascimento é o primeiro evento que reforça a mercantilização de pessoas ou atos naturais, mas só adquiri esse aprendizado depois de duas experiências bastante doloridas que transformaram a minha vida num marco do antes e depois. Tudo começou com minhas gestações, mas o marco mesmo surgiu a partir dos meus partos.

A primeira vez que gestei, entre 2003 e 2004, mergulhei na busca pelo enxoval perfeito, pelo quarto ideal e pelo aprendizado certo da shantala com muito produto a tiracolo. Eu acariciava muito minha barriga, sentia tudo diferente, mas não mergulhei nesta interiorização. Só depois que passei por uma cesárea indesejada é que comecei a acordar para os significados de gestação, parto, nascimento e, finalmente, concepção.

Passei quase cinco anos da minha vida tentando digerir essa insônia que vivenciei iludida com consumo e alienada do processo de nascimento da minha filha, da minha personalidade de mãe, da personalidade do meu marido como pai, da nossa nova família e da construção do ninho. Tive muita raiva e cheguei até a negar todo tipo de consumo para gestação a outras mulheres como meio de compensar meu passado.

Mas a cura chega, sempre pelo perdão. E, hoje, reconheço nossa sociedade do consumo, as dificuldades de lidar com ela e percebo que não é pela negação do enxoval e das grifes de tudo que devemos construir a desmercatilização da gestação, mas pelo equilíbrio da sociedade em valorizar o outro lado desta história, que inclui o reconhecimento dos valores emocionais e espirituais que precisam ser cultivados para o nascimento de uma criança.

Nós, o produto!

Só depois que consegui me perdoar e reconhecer o tamanho da crença que é vendida pelo consumo na gestação é que pude avançar meu caminho de descoberta para nossa mercantilização. Foi assim que surgiu minha segunda gestação, entre 2011 e 2012, quando mergulhei na guerrilha contra as cesáreas sem a consciência do meu medo e sem minha autoconfiança. Meu segundo parto representou um meio do caminho, onde conquistei muito acolhimento, uma equipe humanizada, mas não tinha ainda interiorizado as questões de gênero e consumo embutidas no modelo de assistência ao parto. Só depois que passei por um fórceps e uma episiotomia é que tive condições de abrir os olhos para o custo do parto humanizado, as crenças do modelo tecnológico, o protagonismo feminino e a conexão entre nós e nossos filhos antes de nascerem.

Meu “abrir dos olhos” aconteceu a partir do momento em que tive acesso ao conhecimento da ANEP Brasil, uma entidade criada em 2010 para disseminar conhecimentos sobre Educação Pré-Natal. As vivências que tive na ANEP permitiram que eu reconhecesse as crenças que estão em jogo dentro do modelo de assistência ao parto e as razões pelas quais o discurso das ativistas de que é quase impossível parir no hospital de forma natural faz sentido. Aprendi que os procedimentos e a cultura da maioria dos profissionais do parto propiciam um ambiente de ameaça para o bebê que está dentro da barriga, prejudicando o trabalho natural do parto e desmotivando o protagonismo da gestante. Essa situação contribui para valorizar o exterior e as intervenções, mais poderosos do que o interior do corpo da mamãe, que não funciona pra parir. Assim nasce e reforça-se a crença da sociedade do consumo!

Bastou um ano de vivência com essa nova família – agora muito mais harmoniosa e mergulhada 100% nas questões emocionais e espirituais do nascimento da minha segunda filha e renascimento de todos da família – para eu ter absoluta certeza da importância de assumir minha função profissional nesta causa. Sou formada em jornalismo desde 1996, trabalhei toda minha vida profissional em redação, escrevendo sobre produtos, serviços, empresas e executivos, e fui reconhecida com prêmios pelo mercado por este trabalho. Desde 2005, resolvi voltar pra casa e continuei atuando como jornalista frila para editoriais de economia e tecnologia até 2010, quando enfim comecei a prestar serviços para empresas na área da comunicação corporativa. Ou seja, minha função profissional é “vender” mensagens e faço isso bem.

Mas, no Clarear, minha função profissional vai além, pois ela nasce da minha vivência pessoal e, portanto, considero-a uma função social. É por isso que criei o projeto Clarear como caminho de comunicação para a missão da ANEP Brasil e coloquei a concretização desses 20 artigos na mão do coletivo, através do crowdfunding, já que a ANEP não tem condições de bancar um projeto editorial desse porte sozinha. Minha contribuição, além de conceber o projeto, foi criar um orçamento muito mínimo para realizar as atividades que envolvem a produção de textos jornalísticos.

Todos do Movimento Infância Livre de Consumismo sabem o quanto a coletividade começa no indivíduo. Por isso, peço a ajuda individual de cada membro deste movimento de pais e especialistas do consumo. Se cada um contribuir um pouquinho não pesa pra ninguém e as contribuições começam a partir de 10 reais. Você pode ajudar as famílias brasileiras a terem acesso a esse outro lado da gestação, que pode mudar o jeito dos brasileirinhos virem ao mundo de forma mais acolhedora e com menos ameaça. Para isso, basta contribuir diretamente através da página do projeto Clarear no site da Benfeitoria.

Enfim, eu lhe peço: confie na minha história. Foi ela que serviu de inspiração para a criação do Clarear e também que me motivou acreditar em você. Juntos, podemos dar continuidade aos quatro artigos que completam a reportagem Estou grávida, o que devo fazer agora?

*Ceila é jornalista, mãe de duas meninas e co-autora do blog Desabafo de Mãe.

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Tags:  amamentação ANEP Brasil Desabafo de Mãe gestação informação projeto Clarear

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Mariana Sá




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