livros e filmes / 10 de fevereiro de 2014

O menino e o mundo

Texto de Mirtes Aquino*

Como o mundo pode se apresentar a uma criança? Certamente as respostas para esta pergunta são infinitas. Mas Alê Abreu, ilustrador e cineasta, encontrou na arte uma forma única de expressar uma resposta. O filme O menino e o mundo é acima de tudo surpreendente. Traços simples e cheios de significados constroem a história de Cuca, que se desenrola deliciosamente ao longo de 80 minutos sem usar uma única palavra (na verdade há alguns poucos diálogos falados em uma língua inventada. E há muita música instrumental, que se materializa na tela em bolas coloridas e flutuantes). E sem deixar crianças e adultos desgrudarem os olhos da tela.

O menino morava com seus pais em uma pequena casa de uma zona rural, e precisa descobrir como seguir a vida depois que seu pai entra em um trem e segue para a cidade grande, em busca de melhores oportunidades. Na busca por ressignificar sua dor, ele parte para o mundo, e o mundo se apresenta para ele com toda a sua crueza. Não quero tirar as surpresas do filme, mas não posso deixar de falar sobre o simbolismo surpreendente de suas cenas. O menino vê a alienação e escravidão do trabalho ilustrada numa produção têxtil, da plantação do algodão à exportação dos tecidos, entre flocos branquinhos e rostos apáticos. A vida alucinante das grandes cidades, em ônibus abarrotados de seres humanos que simplesmente se amontoam para voltar para casa, juntando as forças para subir os morros e chegar ao lar, onde tudo que conseguem é comer algo vindo em latas, sentar-se para ver a TV mostrar notícias desconexas e dormir exaustos. Ah, mas tem o futebol, a praia completamente lotada no final de semana, e a noite obscura dos centros de metrópoles. Tem o lixo que se amontoa. Tem a natureza sendo engolida. Tem o povo que se manifesta e o Estado (simbolizado pelo exército) que reprime.

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E no meio disso tudo estão as luzes e o brilho do consumo. Em diversas cenas, o filme retrata a alucinante oferta de produtos, inalcançáveis para a maior parte da população, e deixa transparecer a enorme desigualdade social que na maioria das vezes já não salta aos nossos olhos. Achei muito interessantes as cenas que mostram a TV e a publicidade, utilizando diferentes técnicas, em especial o desenho e a colagem de imagens reais, dando um efeito de pessoas desenhadas com olhos e bocas “reais” – olhares e sorrisos “congelados” que tentam nos convencer de necessidades e urgências que não existem. Placas luminosas, muitas cores e movimentos sem qualquer sentido (não há palavras inteligíveis nem mesmo escritas – as placas e letreiros trazem recortes com pedaços de palavras sem nexo) contrastam com pessoas que vêm e vão sem grandes perspectivas, ilustrando o quanto é vazia a nossa busca por consumir algo que nos complete. A busca de Cuca jamais seria completada com algo comprado, e isso fica claro para qualquer um que assista o filme.

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Um filme apaixonante, extremamente sensível, intenso e realista. E que merece ser visto por adultos e crianças, por qualquer um que queira uma nova perspectiva de olhar o mundo com mais reflexão e olhar crítico. Vou terminar falando das cenas que mais me impressionaram: as que trazem um pássaro colorido, uma fênix formada por centenas de pequenos traços coloridos. Ela aparece repetidas vezes no filme, sempre que o povo se junta, num misto de protesto e festa, e é vencida pelo pássaro negro formado pela fumaça do exército. Os dois pássaros travam uma luta e a fênix é derrotada, caindo no chão e se desfazendo em milhares de pontos coloridos que correm pelo chão em todas as direções. Entretanto, adiante, o filme traz uma cena de crianças que brincam e fazem música, e pontos coloridos fluem delas refazendo a fênix no céu. Tem forma mais linda de dizer que está nas crianças a capacidade de refazer nossas lutas e sonhos? Que está na infância a nossa esperança de um futuro melhor?

Estas foram as minhas percepções do filme. Você também assistiu? Conta aí quais foram as suas. Ainda não assistiu? Procura descobrir se está passando na sua cidade, ainda dá tempo. Que tal proporcionar às suas crianças a oportunidade de assistir a um filme de excelente qualidade artística e fora da mesmice do atual formato comercial? Garanto que será uma ótima experiência!

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*Mirtes é economista, funcionária pública e mãe da Letícia, que há 6 anos a ensina que é possível construir um mundo melhor. Escreve no Cachinhos Leitores, seu blog sobre literatura infantil.

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Tags:  consumismo filmes O menino e o mundo repressão vida moderna

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Mariana Sá




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